A grande deusa e o poder do feminino (Março de 2007)

As sociedades ocidentais têm testemunhado ao longo dos últimos cinqüenta anos mudanças absolutamente radicais no papel desempenhado pela mulher. Muitos foram os fatores responsáveis por essas mudanças tão profundas, levando tanto homens quanto mulheres a re-pensarem suas vidas e o que desejam para si mesmos. Durante milênios as relações de poder entre homem e mulher e dentro da família constituída, basearam-se em uma estrutura patriarcal onde a autoridade do homem era exercida de forma absoluta. No entanto, o poder patriarcal que antes era percebido como natural, incontestável e definitivo, passou a ser desafiado em suas bases, através de fatores como os movimentos pelo direito ao voto feminino do início do século XX, a entrada maciça da mulher no mercado de trabalho durante e após a II Guerra Mundial, o advento dos métodos de controle de natalidade, e o acesso cada vez maior de alunas às Universidades.

Essa efervescência provocada por transformações tão intensas e profundas, tem levado um número considerável de mulheres a se questionarem buscando novos caminhos e propósitos, numa tentativa de descoberta de seu valor pessoal enquanto um indivíduo cujo poder de decisão e escolha sejam respeitados. Todo esse processo de re-descoberta do Poder Feminino é denominado, simbolicamente falando por autores tais como Jennifer Barker Woolger em seu livro A Deusa Interior, como “O Retorno da Grande Deusa”. Relíquias históricas encontradas em sítios arqueológicos de grande importância apontam para a existência anterior de sociedades de estrutura matriarcal, onde o poder do feminino era não só extremamente respeitado, mas cultuado enquanto Divino. Numa época em que as leis básicas da genética e da reprodução ainda eram desconhecidas, o simples fato de se gerar e produzir a Vida, era suficiente para colocar a mulher em posição de absoluto destaque e importância dentro da comunidade.

Cultos e rituais realizados em prol da Grande Deusa Mãe fértil, nutridora, criativa e geradora dos ciclos da natureza, cultuada enquanto a fonte primeira de vida, poder de fertilidade e poder criativo, expressavam a importância desse Poder Feminino. Ela era a “Deusa-Mãe de muitos nomes”, contendo em si todas as possibilidades dos ciclos da existência humana: vida, morte, juventude, velhice e sabedoria. Os cultos realizados em nome da Grande Deusa permitiam aos indivíduos um maior senso de conexão e comunhão com a terra e com a própria força vital, de maior harmonia na vida quotidiana das comunidades e de um profundo entendimento da importância do poder criativo e gerador de vida, expresso pela fertilidade da terra e da mulher.

No entanto, ao longo de muitos séculos de culturas matriarcais, o exercício desse poder feminino tornou-se extremamente exacerbado, o que levou o ‘pêndulo histórico’, numa tentativa de busca de equilíbrio de forças, a oscilar na direção de um pólo de Poder Masculino. Lenta e gradualmente os cultos da Grande Deusa e a importância do Poder Feminino foram sendo substituídos pelos Cultos Patriarcais e domínio do Poder Masculino. Em uma linguagem simbólica, podemos dizer que os Deuses Patriarcais foram ‘dominando a Terra’, expressando e refletindo a estruturação de toda uma cultura ocidental fortemente baseada em elementos patriarcais, que passaram a servir de parâmetro para os relacionamentos familiares, conjugais e sociais.

O longo domínio dos valores e da cultura patriarcal tem e teve a sua razão de ser, no entanto, os aspectos da vida dos indivíduos relacionados ao Poder Feminino pagaram um alto preço por isso, dando origem a conseqüências bastante penosas no que diz respeito à integridade do Planeta. O desmatamento das florestas, o aquecimento global, os atos de crueldade para com os animais, são somente alguns exemplos do quanto nossa Mãe-Terra tem sido desrespeitada. São atos que se constituem como um reflexo direto da forma como o Poder Feminino tem sido tratado por tantos milênios.

No entanto, o surgimento de uma nova ‘psicologia do feminino’ ao longo das últimas décadas, nos faz pensar que o ‘pêndulo histórico’ mais uma vez começa a oscilar, buscando resgatar um Poder Feminino que se encontra ferido e necessitado de Cura. A modificação do papel da mulher, o surgimento dos movimentos ecológicos de proteção ao nosso meio-ambiente, aos animais e à Terra, o surgimento de uma maior consciência do quanto todas as formas de vida estão conectadas umas às outras, o resgate do ser humano enquanto um ser intuitivo, sensível e espiritualizado em seu sentido mais amplo, são elementos que demonstram a volta de uma ‘consciência feminina’, que esperamos venha a permitir uma maior integração dos diversos aspectos do Ser, pois a harmonia que buscamos no mundo externo, começa na realidade, dentro de nós mesmos.

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