A TRIBO ANCESTRAL QUE NOS PERDOE, MAS PRECISAMOS SER DIFERENTES.

Temos a necessidade de ‘pertencer’ a um grupo, a alguém ou causa fundamental, mas ao mesmo tempo de exercer nossa liberdade de ir e vir, de escolhas e de sermos nós mesmos. Temos a necessidade de sermos ‘igual a todo mundo’, pois isso nos dá segurança e firmeza na nossa caminhada, mas ao mesmo tempo de estabelecermos nossa marca de individualidade única e diferenciada. E como encontrar esse equilíbrio tão importante para nossas vidas?

Enquanto profissional da área de saúde mental, tenho tido a felicidade de poder testemunhar o quanto muitos dos conceitos pertinentes à Psicologia e à Psicanálise formulados há tempos atrás, tem ultimamente se beneficiado enormemente de contribuições de áreas do saber como a Teoria dos Sistemas e a Constelação Familiar A evolução nesse sentido tem sido profunda e vivenciar de perto todo esse processo enquanto parte integrante desse momento histórico, tem sido absolutamente fascinante! Aquela estudante de Psicologia do início dos anos 80 jamais poderia imaginar que estaríamos hoje diante de um ‘admirável mundo novo’ explicativo da tão fascinante condição humana.

Eu me lembro perfeitamente bem das aulas sobre Teorias da Personalidade em que meus professores enfatizavam bastante os aspectos ‘inatos’ e ‘adquiridos’ de nosso desenvolvimento. Seríamos uma espécie de síntese entre ambas as coisas, e tudo (ou quase tudo), cabendo dentro dessa explicação. Para mim era muito clara a questão das influências familiares e sociais, mas de onde viriam, o que seriam essas características inatas? De que forma? Em quais circunstâncias elas surgiriam? E me lembro perfeitamente bem do quanto minha mente bastante curiosa e inquisitiva, desejosa de ir muito além, questionava aquilo que para mim surgia como uma grande abstração. E foram necessários muitos anos para que o surgimento de outras referências experimentais e teóricas pudessem responder ‘a pergunta que não queria calar’.

Vamos falar por exemplo das neuroses que são tão bem explicadas na obra freudiana e psiquiátrica.  De acordo com a visão psicanalítica elas são fruto de tentativas de se lidar com conflitos e traumas inconscientes, através de comportamentos possivelmente “escolhidos” pelo indivíduo numa determinada fase inicial de sua vida e que possuiriam um caráter extremamente adaptativo ao permitirem nossa sobrevivência emocional frente à pressões internas e externas muito fortes. No entanto a neurose surge quando ocorre a cristalização de comportamentos que deveriam ter durado tão somente o tempo necessário para que novas possibilidades mais criativas surgissem, o que lamentavelmente nem sempre pode acontecer. E hajam horas e horas de terapias as mais diversas para desfazer toda essa confusão!

É claro que estou aqui mencionando aspectos bastante individuais de funcionamento, mas através das contribuições do estudo das Constelações Familiares, podemos observar que a repetição de determinados padrões neuróticos de comportamento se deve, entre outras causas, à necessidade de nos mantermos fiéis aos valores e sistemas de crenças de nossa tribo ancestral. Em tempos passados estar profundamente vinculado ao clã, seria o ‘passaporte para a sobrevivência’ caso surgissem tempos muito difíceis. Honrar nossa ancestralidade através da lealdade ao grupo familiar, estabeleceria a diferença exata entre o viver e o morrer.

Nos dias de hoje muito já avançamos em termos de desenvolvimento tecnológico e social, mas essa ‘necessidade primal’ de pertencimento está ainda bastante ancorada em camadas muito profundas de nosso inconsciente coletivo. Fazer parte de um grupo ou tribo familiar nos traz a segurança diante de um mundo que se apresenta frequentemente bastante hostil. Mas o que se apresenta enquanto função cuidadora, pode facilmente nos conduzir a um “emaranhamento sistêmico” que nos mantém presos aos sofrimentos de nossos antepassados e do qual precisamos nos libertar. A busca pelo auxílio terapêutico surge então como a permissão interna para irmos além dos possíveis sentimentos de culpa que possam surgir na busca pela nossa felicidade e realização.

Finalmente, vale a pena aqui mencionar que não se trata de simplesmente ‘jogar fora’ o que nossa ancestralidade teve a nos oferecer, e que com certeza trouxe contribuições valiosas, mas honrar aqueles que nos antecederam e que deram o melhor de si em condições muitas vezes as mais adversas, percebendo que a lealdade familiar pode ser resignificada para nosso próprio bem. Com toda a certeza nossos ancestrais estarão “aplaudindo de pé” a coragem de sermos o que eles não puderam ser e de atingirmos patamares de existência com os quais nem mesmo podiam sonhar,  abençoando nossa caminhada na direção de uma vida mais liberta e feliz.

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