Atravessando fronteiras: Sons, linguagem e DNA (Parte 1)

Há séculos o poder terapêutico dos sons tem sido utilizado por curadores, místicos e xamãs em suas práticas de cura, através da utilização de cânticos, mantras, preces e músicas sagradas, com o objetivo não só de estabelecer a conexão com a Divindade, mas de auxiliar os indivíduos na restauração do bem-estar físico, emocional e espiritual. Desde tempos imemoriais sabe-se que determinados tipos de sons podem produzir alterações de estados de consciência, permitindo aos indivíduos vivenciarem não só sentimentos de um profundo relaxamento, mas também de transcendência espiritual. Nesse sentido, a música tem sido utilizada por xamãs de todo o mundo e de todas as épocas, como um meio que permite aos indivíduos atingirem níveis bastante elevados de conexão com planos espirituais. A comprovação daquilo que tem sido demonstrado pelas tradições espirituais ao longo de tantos séculos, que os sons podem interferir positiva ou negativamente nos estados mentais e emocionais dos indivíduos, começa agora a ser validada por pesquisas que utilizam imagens gráficas computadorizadas obtidas por equipamentos de ressonância magnética e pelos traçados de ondas cerebrais obtidos por aparelhos de eletroencefalografia (EEG). Os resultados obtidos por esses equipamentos permitem uma melhor compreensão da relação existente entre diferentes freqüências sonoras, e nisso se incluem a música e a linguagem, e os conseqüentes estados mentais e emocionais por elas produzidos. Músicas utilizadas para meditação, por exemplo, produzem uma lentificação das ondas cerebrais e um maior relaxamento, enquanto que músicas de batida mais intensa levam a uma alteração das ondas cerebrais que produzem um estado de maior excitação emocional. Ao que parece a relação existente entre os sons, o funcionamento cerebral e o comportamento emocional dos indivíduos, é muito maior do que poderíamos pensar.

Tom Kenyon em seu livro “Brain States” nos fala a respeito de um interessante estudo conduzido pela dra Sue Chapman no hospital de Nova York, onde bebês prematuros internados na unidade neonatal foram divididos em dois grupos. O objetivo de tal pesquisa era avaliar a influência da música no desenvolvimento desses bebês. Ambos os grupos de bebês recebiam cuidados idênticos, a não ser pelo fato de que o grupo experimental ouvia várias vezes ao dia a canção de ninar de Brahms, enquanto que o grupo de controle não escutava essa canção. Os resultados foram surpreendentes. Os ‘bebês Brahms’ apresentaram um menor número de complicações, ganharam peso mais rapidamente, desenvolveram-se melhor, obtendo alta do hospital em média uma semana antes dos bebês do grupo de controle. Os resultados falam por si mesmos. Segundo os pesquisadores, tendo em vista  o quanto a música pode afetar áreas difusas do cérebro, a canção de ninar de Brahms teria presumivelmente provocado alterações benéficas do ponto de vista cerebral, o que permitiu melhores resultados no estado geral desses bebês.

Em outro estudo realizado em um monastério de monges beneditinos na França, Alfred Tomatis, um médico francês, foi chamado para atender monges que apresentavam sinais bastante claros de depressão, apatia e falta de apetite. Ao chegar ao monastério, Tomatis soube que o novo monge superior que havia assumido suas funções alguns meses antes, considerava-se um homem ‘moderno’ e passou a proibir a realização dos tradicionais cânticos gregorianos, por considerá-los ‘medievais’. Quando tal hábito foi restaurado, o estado de ânimo dos monges sofreu radical transformação, desaparecendo por completo os sinais de depressão. Os cânticos gregorianos eram os únicos estímulos sonoros presentes na vida desses monges e sua ausência demonstrou, sem dúvida alguma sua importância fundamental para esses indivíduos.

A influência que os sons exercem na vida dos seres humanos apresenta desdobramentos ainda mais desafiadores, se entendermos que a linguagem é som, e que enquanto tal, dependendo da forma como é empregada, significativas alterações no comportamento dos indivíduos podem ocorrer. Recentes pesquisas no campo da genética têm demonstrando de forma surpreendente, que a chave para o entendimento da estreita relação entre sons, linguagem, estados emocionais e comportamento, encontra-se na estrutura do código genético humano. (continua na edição de julho)

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