É possível crescer através das perdas e separações? (Dezembro de 2008)

Se existe uma coisa que os seres humanos dificilmente conseguem aceitar é a perda ou a separação de algo ou alguém significativamente importante. Todos os recursos e estratégias possíveis são empregados com o fim de evitar que isso aconteça. Mas quais as razões para a existência de um sentimento tão forte e universal presente em todas as culturas de todos os tempos? O primeiro impacto energético e emocional que os indivíduos sofrem assim que é inaugurada sua existência na terra, é marcado pelo processo de separação física de suas mães através do corte do cordão umbilical. Ao que parece, por melhores que tenham sido as condições do parto, este episódio inicial característico na vida de todo o ser humano, é sentido com fortes doses de desamparo e angústia, criando uma espécie de “molde” que irá determinar em grande parte a forma como iremos experienciar futuras situações de perdas e separações.

Quando o bebê vivencia o processo de seu nascimento com sentimentos de extrema angústia e dor psíquica, esse “molde” irá afetar de forma decisiva muitas de suas reações a certas vivências no mundo, de tal forma, que esses sentimentos tão primitivos serão ‘reeditados’ toda a vez que perdemos algo ou alguém fundamentalmente importante em nossas vidas. Psicologicamente falando, toda a vez que ocorre algum tipo de perda ou separação, seja pela morte de um ente querido, seja pela remoção cirúrgica de partes do próprio corpo, ou até mesmo através de perdas de situações concretas como a mudança para uma nova cidade, experienciamos um período que é denominado de ‘luto’, processo emocional que tem por objetivo permitir e facilitar à mente lidar, aceitar e incorporar a idéia da perda como algo  definitivo e irreversível. É um processo de duração diversa, podendo ser bastante longo por vezes e acompanhado de graus variáveis de falta de interesse pelo mundo exterior, sentimentos de tristeza profunda e de pesar acentuado,

de ansiedade e sofrimento extremos, que vão diminuindo conforme o processo avança e conforme os recursos emocionais disponíveis a cada um. Inicialmente a pessoa enlutada rememora constantemente tudo aquilo que diz respeito à pessoa ou à situação perdida, desligando-se temporariamente das situações mais presentes de sua vida diária. Mas lenta e gradualmente a vida vai ‘voltando ao normal’ e o que permanece são os sentimentos de saudades e as lembranças queridas, permitindo que novas ligações afetivas possam ocorrer. Quando isso acontece estamos prontos para seguir em frente. É preciso apenas que não cobremos demais de nós mesmos, nos permitindo sentir a dor que envolve todo o processo, mas mantendo a certeza de que o crescimento e a evolução para novos caminhos se apresentará, sem dúvida alguma, como uma possibilidade de continuidade e de renovação de vida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *