É POSSÍVEL “SOBREVIVER” À ADOLESCÊNCIA NOS DIAS DE HOJE?

Ser adolescente nunca foi fácil, mas posso dizer enquanto terapeuta, que em tempo algum foi tão difícil quanto nos dias atuais.  Comecei a assistir “13 Reasons Why”, novo seriado lançado no Netflix no final de março, e rapidamente pude compreender o porquê das chamadas ao CVV terem dobrado em tão poucos dias. Estamos vivendo momentos em que a beleza da tecnologia e do mundo virtual, como tudo na vida, pode ser utilizada tanto para trazer o lado mais luminoso quanto o lado mais perverso dos seres à tona. E o mundo adolescente pode em alguns momentos se tornar muito mais do que desafiador nesse sentido, caso os limites que precisamos honrar na convivência entre seres não sejam respeitados.

Neste seriado Hanna Baker, uma adolescente típica para sua idade, comete suicídio após uma série de situações de bullying e assédio na escola que frequentava. Sua história é contada através de algumas fitas cassete gravadas anteriormente à sua morte, e que são entregues a um grupo especificamente escolhido, por razões que ao longo dos episódios vão sendo reveladas. Assistindo as cenas iniciais do primeiro episódio, fui relembrando com muita nitidez o que eu mesma sofri em minha fase adolescente 40 anos atrás, onde felizmente ainda não estava presente o impacto dos atos desequilibradamente praticados com o auxílio de ferramentas do mundo virtual e das mídias sociais. No entanto já naquela época, a presença de atos de crueldade realizados por quem não tem a menor consciência do quanto pode ferir uma outra pessoa, já se faziam presentes no cotidiano das salas de aula. Felizmente tive o auxílio de muitas horas de terapia e pude ir para além de tudo isso, me fortalecendo e conquistando meu lugar no mundo.

O adolescente tem de vivenciar seu amadurecimento através de pressões biológicas, emocionais e sociais enormes. Isso faz parte de sua evolução, e ele precisa encontrar uma saída saudável para isso. Seu corpo se transforma, as relações parentais mais ainda, a necessidade de uma escolha profissional, o estabelecimento de um senso de identidade mais claramente definido, tudo isso vem trazer conflitos e questionamentos muito profundos, dos quais muitas vezes o adolescente nem ao menos tem muito consciência sobre. Sua necessidade de pertencer ao grupo muitas vezes acaba por conduzir esse jovem a se “vestir de comportamentos” que seriam inaceitáveis para quem olha de fora, mas que fazem parte de um código de conduta aceito por aqueles que de certa forma “ditam as regras”. Tribos diversas se formam: o grupo dos “populares”, o grupo dos “nerds”, a mocinha mais desejada e bonita da sala, o mocinho mais interessante e cobiçado pelo grupo feminino, o grupo da “barra pesada”, são alguns dos “personagens”, por assim dizer, facilmente identificáveis na maioria das salas de aula. Todos eles tentando de alguma forma crescer rumo a uma identidade estabelecida e a entrada em um mundo adulto, muitas das vezes de formas não muito harmoniosas, e é exatamente aí que mora o problema.

Mas o que essa série revela e vem polemizar é o quanto a tecnologia, que serviria na verdade tão somente para facilitar nossas vidas, pode se tornar uma ferramenta de ‘crueldade e execução social’, quando utilizada das formas mais equivocadas possíveis, por pessoas que buscam a qualquer preço e a qualquer custo, a aprovação e a aceitação de seus grupos. Isto porque para o adolescente não ser aceito pelos seus pares é algo que beira o insuportável, significando cair em desgraça perante sua comunidade. E o que não só para mim mas para tantos profissionais das áreas de saúde mental tem se tornado estarrecedor, é o quanto certos comportamentos vão aos poucos se tornando “normais” por aqueles que buscam exercer um poder intimidador como garantia de sua formação de identidade.

Embora no ato de suicídio muitas vezes as pessoas buscam encontrar “um que ou um quem culpado”, considero que independentemente do que esteja acontecendo, a única e real responsabilidade deve recair exclusivamente no colo (e nas mãos!) daquele que comete tal ato contra si próprio.  Podemos no entanto procurar ao menos entender as razões subjacentes a esse comportamento, mas que apesar de sua compreensão, nunca deixarão de impactar quem está por perto. Embora seja ficção não baseada em fatos reais, este seriado busca retratar o que vem acontecendo de uma forma bastante corriqueira no dia-a-dia dos adolescentes. Eu mesma já tive a oportunidade de atender uma jovem que passou por algo muito semelhante e que trouxe marcas bastante profundas em uma alma que precisava de cura para seguir em frente. Que essas questões possam não ser esquecidas e que a sociedade como um todo possa refletir no quanto mais do que nunca o respeito ao próximo, como se dizia na minha época, não será ‘careta’ de forma alguma, mas sim a condição fundamental de podermos nos considerar seres humanos.

 

 

 

 

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