Emoção do medo: alerta para a sobrevivência ou controle das massas? (janeiro de 2009)

Basta ler os jornais ou ligar a televisão para que as notícias de guerras, desemprego e violência urbana provoquem imediatamente uma sensação de temor e desamparo, nos fazendo sentir de repente apreensivos e inseguros. Mas qual seria a função de um sentimento tão incômodo quanto o medo? Da mesma forma que tantas outras emoções humanas, por mais estranho que isso possa parecer, o medo possui uma importante função. As dificuldades maiores surgem quando ele se torna exacerbado perdendo seu caráter adaptativo e caminhando muito mais na direção de patologias como fobias, medos mórbidos e síndrome do pânico, que se tornaram extremamente freqüentes para uma expressiva parcela da população, justificando o aumento bastante significativo na procura por tratamentos, dizem os especialistas.

Podemos dizer que a sobrevivência física dos indivíduos depende de inúmeros fatores, e o medo atua como um sinal de alerta de que nossa integridade física ou emocional se encontra ameaçada por um estímulo físico ou mental que é percebido como uma situação de perigo, e que necessita, por esse motivo, ser adequadamente enfrentado. O corpo todo se prepara para aquilo que chamamos de “resposta de luta ou fuga”, através da liberação de hormônios como a adrenalina e o cortisol que dão origem a respostas fisiológicas que vão possibilitar aos indivíduos condições para lidarem com situações que são vivenciadas enquanto uma ameaça. Pupilas dilatadas, sudorese intensa, aceleração dos batimentos cardíacos e da respiração, alterações musculares, são um conjunto de reações, que expressamos desde os primeiros anos de nossas vidas, cujo objetivo é mobilizar padrões comportamentais de fuga ou de luta diante de estímulos ambientais sinalizadores de perigo.

Outras espécies animais também compartilham dessa habilidade, embora não possamos assegurar que tenham a consciência subjetiva da experiência emocional de medo. Na verdade, estudos contemporâneos sugerem que o cérebro dispara tais reações antes mesmo que ele possa processar conscientemente os detalhes do que esteja acontecendo. Embora as respostas fisiológicas e comportamentais imediatas sejam as mais adequadas, a capacidade de pensar, de refletir e de articular raciocínios e pensamentos lógicos fica alterada nesses momentos, pois se formos ‘pensar no que fazer’ poderá ser tarde demais. Isso trás implicações bastante significativas num contexto social mais amplo, pois é interessante notar que as reações provocadas pelo medo, embora dêem origem a mecanismos adequados para a nossa sobrevivência, nos auxiliando a enfrentar condições adversas do dia-a-dia podem, quando provocadas de forma consciente e intencional, servir a propósitos de controle e de manipulação dos indivíduos, e o que é pior, de comunidades inteiras.

O que quero dizer é que se observarmos com a devida atenção, perceberemos a existência nos dias de hoje de uma “cultura do medo”, que leva as pessoas muitas vezes a se submeterem a qualquer coisa para saírem de uma determinada situação de sobrecarga emocional. Somos submetidos a pressões de toda ordem e o medo surge quase que diariamente como conseqüência. Por essa razão é tão importante, mais do que nunca, que os indivíduos procurem uma consciência cada vez maior de si mesmos, de seus objetivos, desejos e vontades, condição através da qual poderemos permanecer inteiros, independentemente das ‘águas turbulentas’ que necessitemos navegar.

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