FAZER TERAPIA, UM ATO DE AMOR POR SI MESMO (ou quando navegamos em águas profundas)

Costumo dizer de uma forma um tanto ou quanto brincalhona, mas com imenso fundo de verdade, que “minha vida foi salva” porque felizmente fiz terapia quando adolescente. Por mais incrível que possa parecer às pessoas que me conhecem, já fui aquilo que chamo de ‘bichinho do mato’, extremamente tímida, reservada e com muitas dificuldades para me socializar nos grupos e na escola. Filha mais velha de uma irmandade de três mulheres, apresentava uma forte tendência em meu comportamento a ser muito “certinha”. Estudiosa, uma das melhores alunas da classe durante todo o colegial, para mim era extremamente natural buscar a excelência em tudo o que fazia, mas infelizmente à custa de uma impopularidade muito grande nas salas de aula. No início da adolescência espinhas enormes tinham decidido fazer meu rosto de sua ‘eterna morada’, originando uma acne considerável, sendo obrigada a passar por tratamentos cansativos, dolorosos e intermináveis por quatro longos anos. Todo esse “conjunto da obra” me tornou “um prato cheio” para aqueles cujas atitudes nada amistosas tive que suportar. Não preciso nem dizer o quanto sofri nas mãos de colegas que tudo faziam para me atormentar e tornar minha vida ainda mais difícil. Sofri aquilo que hoje em dia é chamado de ‘bullying’, muito antes de saber que existia um nome para isso. Costumo dizer que os adolescentes podem ser bastante cruéis e agradeço tudo isso ter acontecido pelo menos antes da época das mídias sociais. Como profissional que também trabalha com adolescentes, sei muito bem quais os desdobramentos e consequências que podem dramaticamente surgir através de situações como essa nos dias de hoje.

Felizmente por orientação de meu pediatra na época, meus pais procuraram terapia para mim. Durante quatro anos, dos 12 aos 16, participei semanalmente de um grupo de adolescentes que falavam de tudo e mais alguma coisa. Aos poucos fui conseguindo me abrir, me entender melhor, me colocar melhor nas coisas, me expressar e principalmente me defender de certas atitudes hostis a mim dirigidas. Gradualmente fui assumindo meu lugar no mundo e exercendo meu poder pessoal de uma forma cada vez mais estruturada. Nunca mais parei esse processo de autoconhecimento, pois como terapeuta e psicóloga costumo dizer que “somente levamos as pessoas onde nós mesmos já estivemos”. Sem querer ‘jogar em causa própria’, considero o ato de iniciar e continuar uma terapia pelo tempo que for necessário, um dos gestos de maior amor, cuidado, apreço e consideração que podemos ter por nós mesmos. Uma jornada de tamanha profundidade que somente aqueles que corajosamente fazem essa opção têm o privilégio de descobrir os ganhos imensos que podemos ter através desses mergulhos tão profundos de alma. E contrariamente ao que popularmente se pensa, falar sobre suas dificuldades não piora a situação, muito pelo contrário. Aos poucos o sentido de tudo que está encoberto e envolto nos mistérios do inconsciente vai sendo revelado, promovendo uma expansão de consciência inimaginável.

Aos 16 anos escolhi fazer psicologia, tornando-me mais tarde uma espécie de “mergulhadora profissional das águas do inconsciente”, para mim o único caminho possível se quisermos encontrar o melhor de nós mesmos no exercício de nossa plena humanidade.  Nunca me arrependi de tal decisão, pelo contrário, e tenho tido, felizmente, a alegria de encontrar (ou ser encontrada) por grandes companheiros de mergulhos, outros terapeutas, meus clientes e pacientes, que com certeza tem permitido à  minha jornada ser muito melhor! Com eles também continuo realizando meus mergulhos, abastecida pelo oxigênio da determinação, da fé em mim mesma, da esperança de dias sempre melhores e da felicidade de ir cumprindo minha missâo de vida, esse o maior presente que o destino me deu!

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