Honrando o “diferente” que promove as mudanças

diferenteO ‘diferente’ incomoda. O ‘diferente’ fica ressoando em nossos ouvidos e impactando nossas retinas de uma forma escandalosamente natural e objetiva. O ‘diferente’ tumultua nosso sono tranquilo e nos faz pressentir e perceber com clareza as mudanças que vem para ficar. O ‘diferente’ trás o êxtase e a dor experienciados através de um mundo que nunca mais será o mesmo. Muitos senão todos os conflitos filosóficos, religiosos e ideológicos pelos quais a Humanidade passou e ainda passa, se deveram à presença inequívoca e alarmante de um líder que trouxe a marca de sua ‘diferença’ para nossas vidas e para os livros de História. Todos eles cutucaram nossa forma de ser, agir e pensar. Todos eles de alguma forma provocaram nossa curiosidade e fizeram o nosso mundo mais bonito de ser vivido. Ainda que com os ‘altos e baixos’ tão característicos dos tempos aos quais pertenceram.

No último final de semana assisti ao filme “Jogo da Imitação”, baseado em fatos reais, onde é retratada a incrível história de Alan Turing, um homem que funcionava de uma maneira muito ‘diferente’. Ele percebia a vida com olhos completamente fora dos padrões coletivos, sendo por isso extremamente perseguido pelos seus pares desde muito jovem. Beirando algum tipo de síndrome de certa forma não muito identificada, Alan Turing se dedica de uma maneira quase que obsessiva à construção de uma máquina fantástica, precursora de nossos computadores atuais, capaz de decodificar as mensagens nazistas criptografadas em código. Por ser um segredo de estado onde nada poderia ser revelado, como não o foi por mais de 50 anos, seu inventor permaneceu da forma mais anônima possível. Essa tão impressionante façanha considerada impossível por todos, exceto por ele mesmo, permitiu que o término da 2ª Grande Guerra fosse abreviado em alguns anos. Milhões de vidas foram salvas e o sofrimento de toda uma Humanidade abreviado sem que ninguém tivesse a menor idéia do que estava ocorrendo de forma tão secreta, a não ser os diretamente envolvidos. Ser ‘diferente’ no trato com as outras pessoas não o incomodava, mas as hostilidades não pararam por aí. O fato de ser homossexual, o que em sua época era considerado um crime passível de processo e prisão, trouxe repercussões muito graves no final de sua vida. Sem entrar em detalhes que possam estragar a vontade de meus leitores em assistirem ao filme, Alan Turing paga um preço bastante alto por sua ‘diferença’, deixando entrever o quanto o ser humano pode ser bastante cruel.

Este filme mexeu muito comigo. Pude me identificar bastante com o quanto o ‘diferente’ pode sofrer na carne e na alma a perseguição daqueles que não entendem o seu jeito ‘diferente’ de ser. Extremamente tímida e introvertida na escola, desde muito pequena fui alvo de muitos ataques psicológicos, e até mesmo físicos, de colegas de classe que não conseguiam entender, muito menos acolher o meu jeito de ser. Aluna extremamente estudiosa, a melhor da classe no primário, e sempre uma das melhores no ginásio e científico, aquilo que hoje chamamos de “nerd”, naquela época tinha um nome bem mais agressivo e pejorativo. Sempre fui pouco dada a participar nas brincadeiras e conversas agitadas de todos, de pouca conversa e com dificuldades no estabelecimento de vínculos sociais, eu era um ser ‘estranho’, que enquanto criança nas horas vagas do recreio da escola pública, amava ler na biblioteca todos os livros sobre as histórias de santos e santas que podia encontrar. Quem não acharia uma pessoa assim esquisita? Eu era sem sombra de dúvida um ser ‘diferente’. Além disso minha imaginação tão fora do comum me fazia sentir como se não ‘fosse desse mundo’. Não conseguia trazer para fora a imensa riqueza que habitava meu coração. Me sentia só e excluída, ao mesmo tempo em que ansiava desesperadamente por ser “igual a todo mundo”. E esse sentimento me acompanhou por muitos longos anos.

Na faculdade me senti ‘diferente’ por nutrir interesses e sensibilidades espirituais já bastante aflorados na época. Como contar para minhas colegas do curso de Psicologia da PUC, que eu frequentava giras onde era orientada por uma pombagira incrivelmente bela e impressionantemente sábia e cheia de luz? Mais uma vez minha ‘diferença’ precisou ser trabalhada emocionalmente dentro de mim. Se hoje ainda existe tanto preconceito imaginem naquela época nos idos do início dos anos 80. Com certeza ao me sentir tão fora dos padrões por diversos motivos, foram precisas algumas muitas horas de terapia e de processamentos internos para poder me conhecer melhor e me entender melhor. Mas foram necessárias décadas para aceitar não somente essa mas inúmeras outras “diferenças”, e compreender que era exatamente isso que me fazia tão única e especial. Hoje passados tantos anos de busca, procura e aceitação, percebo finalmente com infinita alegria o quanto é exatamente minha “diferença” que se tornou aquilo com que mais posso contar para realizar meu caminho e cumprir minha Missão. E hoje para minha imensa realização e extrema satisfação, não trocaria por um segundo sequer esse meu jeito de ser por qualquer outra coisa ‘mais aceitável’. Como minha filha diz de forma amorosamente irônica, prefiro viver ‘no mundo do unicórnio’ que muito mais sentido faz para mim, do que me ajustar ao senso comum tão empobrecedor. E começo a chegar a conclusão de que o ‘diferente’ é tudo aquilo que as pessoas tanto desejam ser mas não conseguem ousar a se tornar. Mas para isso basta somente um pouquinho de coragem e a compreensão de que existem mundos infinitos onde esse ‘diferente’ é simplesmente o ‘normal’ e a regra. E dentro desse espírito convido a todos que leem minha mensagem, a celebrarem aquilo que os fazem tão especiais, aceitando com o coração muito aberto suas próprias singularidades, e percebendo finalmente que o mundo vai poder nos amar e aceitar, se pudermos fazer isso, de fato e de verdade, por nós mesmos em primeiro lugar.

6 Responses so far.

  1. Philipe disse:

    Que texto lindo! Como sempre, né?

    O diferente assusta. O ser humano tem medo do desconhecido. Fato.

    E o “sistema”, tem ainda mais medo do diferente, pois o “Igual” é mais fácil de controlar, não é?

    Super beijo minha amiga! Parabéns pelas lindas palavras!

  2. Lia disse:

    Oi Mônica, adorei o texto e me identifiquei. Quando estou em meio aos meus pensamentos, me sentindo “sem encaixe” nesse mundo, penso exatamente nisso: em me aceitar e celebrar o que me é único. Muito bom começar o dia com esta leitura! Beijo e obrigada!

    • Lia querida fico imensamente feliz em saber que meu texto foi de encontro aos seus pensamentos e sentimentos. Há que se ter coragem e muita confiança em nós mesmos para celebrarmos as nossas ‘diferenças’ que se tornam as sementes de uma existência mais genuína e verdadeira. Beijos querida!!!

  3. Meu Deus!!!! me ví em muitas situações durantes este leitura. querida Mônica, hoje vejo que somente o amadurecimento, não amadurecimento através do tempo, mas sim através das experiências, podemos nos valorizar pela nossa diferência. Que maravilha poder dizer “EU SOU O QUE SOU”, esta frase traz o reconhecimento da divindade que somos.
    Maravilha de texto.
    bj grande.

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