Intuição: habilidade humana inata? (Publicado em Novembro de 2006)

Em quantos momentos de nossas vidas não escutamos uma ‘voz interior’ que nos alertava sobre decisões a serem tomadas, sobre escolhas a serem feitas ou principalmente a serem evitadas? O fenômeno da intuição foi sempre considerado algo bastante controverso e polêmico, dando origem aos mais diversos questionamentos, sendo tradicionalmente considerado um ‘dom feminino em um mundo masculino’. Em uma sociedade largamente dominada pelo cientificismo e pelo uso exacerbado da racionalidade, a intuição foi relegada ao domínio do ‘não-explicável e por isso mesmo não aceito’. No entanto, ela vem se tornando objeto de estudo das comunidades científicas e empresariais, que buscam um melhor entendimento a respeito de seu funcionamento. Intuição vem do latim intueri e significa ‘ver por dentro’, o ato de perceber, discernir e pressentir uma verdade que chega ao  nosso conhecimento através de caminhos que nada tem a ver com o pensamento lógico ou racional.Segundo os filósofos, a intuição é uma forma privilegiada de conhecimento que permite a apreensão da realidade de maneira imediata, sem que os mecanismos da mente racional sejam ativados ou sem que para isso sejam utilizados quaisquer tipos de informação e conhecimento anteriores. A intuição desempenha um papel fundamental na criatividade, estando na base de muitas das descobertas científicas realizadas, conforme o caso do químico alemão August Kekulé, que “viu” em sonho, na imagem de uma serpente que mordia a própria cauda, a estrutura química do anel de benzeno.

Seria a capacidade intuitiva algo inato aos seres humanos? Alguns pesquisadores afirmam que sem a intuição, nossos ancestrais muito provavelmente não teriam conseguido sobreviver e evoluir. O ser humano primitivo cujo cérebro ainda era pouco desenvolvido vivia em uma época de constantes perigos e ameaças, onde as respostas tinham que ser imediatas e onde ele teria que contar com sua capacidade em tomar rápidas decisões baseadas em sua intuição. Ainda que o cérebro humano e sua capacidade racional tenham se desenvolvido incrivelmente, o uso de nossas habilidades intuitivas continuam sendo uma importante ferramenta, e desta vez, para nossa sobrevivência em um mundo moderno e tecnologicamente avançado. Segundo o autor Malcolm Gladwell em seu livro Blink, the Power of Thinking Without Thinking, escolhas bem sucedidas e tomadas de decisão apropriadas realizadas em um ‘piscar de olhos’, podem ser tão boas quanto as decisões baseadas no pensamento cauteloso e racional que usualmente leva mais tempo para ser elaborado. Gladwell vai mais além quando afirma que a realização de escolhas bem feitas de forma ‘instantânea’, pode ser desenvolvida e educada em nosso benefício e para nosso proveito máximo.

Vivemos em um mundo onde tudo ocorre muito rapidamente e a necessidade de realização de tarefas múltiplas e tomadas de decisão em prazos cada vez menores é, freqüentemente, o fator que, como um ‘fio de cabelo’, define os limites entre o sucesso e o fracasso. Precisamos lidar cada vez mais com uma infinidade de estímulos de forma rápida, precisa, segura e adequada. Algumas pesquisas têm sido conduzidas com o propósito de se avaliar de forma objetiva e mensurável, o papel e a eficácia da intuição no processo de tomada de decisão. Empresários e homens de negócios começaram a perceber na última década, que decisões baseadas somente no exercício do pensamento racional podem ser muito lentas e ‘chegarem atrasadas’, em um mundo onde freqüentemente as situações mudam radicalmente da noite para o dia. Esse fato foi confirmado em um recente levantamento feito pelo International Institute For Management Development com sede na Suíça, onde 80% dos 1.312 executivos entrevistados em nove países avaliaram que a intuição se tornou um elemento importante para a formulação e planejamento estratégicos em seus ambientes de trabalho. Decisões baseadas na ‘lógica intuitiva’ foi o que fez toda a diferença em momentos de crise. Essa foi uma das conclusões a que o psicólogo cognitivo Gary Klein chegou em seu trabalho de pesquisa sobre o fenômeno intuitivo ao longo dos últimos vinte anos, no contato com profissionais das áreas de saúde, profissionais de equipes de resgate e emergência, bombeiros, pilotos, empresários e veteranos de guerra. Ele afirma que apesar de um número considerável de incertezas, em situações bastante críticas e sob níveis bastante elevados de pressão, esses profissionais decidiram pelo melhor, ao confiarem em sua ‘sabedoria interior imediata’.

Os processos intuitivos estão associados ao funcionamento do ser humano como um todo, enquanto um ser físico, emocional, psíquico  e espiritual. Fica bastante claro que quando começamos a utilizar nosso potencial intuitivo de uma forma mais freqüente em nossas vidas, desenvolvemos nossa criatividade, acessando uma fonte inesgotável de sabedoria interior, que com toda a certeza sempre esteve presente, e que se torna nossa “aliada” quando  ‘damos ouvidos’ a ela.

Diz Alexis Carrel, um dos mais acatados expoentes da ciência oficial, a respeito desta maravilhosa faculdade: “É evidente que as grandes descobertas científicas não são unicamente obras de inteligência. Os sábios de gênio, além do dom de observar e de compreender, possuem outras qualidades, como a intuição e a imaginação criadora. Por meio da intuição, aprendem o que os outros homens não vêem, percebem a relação entre fenômenos aparentemente isolados, sentem inconscientemente a presença do tesouro ignorado. Todos os grandes homens são dotados do poder intuitivo. Sabem sem raciocínio e sem análise o que lhes importa saber. As descobertas da intuição devem ser sempre desenvolvidas pela lógica. Tanto na vida corrente como na ciência, a intuição é um meio de adquirir conhecimentos de grande poder, mas perigosos. Por vezes, é difícil distingui-la da ilusão. Aqueles que só por ela se deixam guiar estão expostos ao erro. Mas aos grandes homens ou aos simples, de coração puro, pode ela conduzir aos mais elevados cumes da vida mental ou espiritual”.

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