Mães que “amam demais”, mães que “soltam demais”: a busca do imprescindível ponto de equilíbrio.

mãe e filho 1Ontem pela manhã cedinho a primeira coisa que fiz foi postar um texto gigantesco na página do Facebook de minha filha. Era o dia de seu aniversário e tinha a intenção de deixar uma mensagem bem singela, mas aqueles que me conhecem sabem que pelo meu jeito de ser isso é quase impossível, especialmente num dia tão especial assim para mim. As lembranças de tanta coisa foram voltando à minha memória e quando me dei conta havia escrito muito mais do que pensava inicialmente, numa mistura de encantamento e perplexidade pelo tempo que passou tão acelerado, e que transformou aquele lindo bebê em uma linda mulher da qual sinto um orgulho infinito. E linda não só por fora, mas principalmente na intimidade de seu espírito e na grandeza de seu coração. Ao escrever derramei minha sensibilidade de mãe abrindo as comportas de meus sentimentos numa espécie de “carta para uma filha muito amada”. Tantas lembranças, tantas experiências ao longo de um pouco mais de três décadas, ainda tão vivas dentro de mim.

E logo ao terminar fiquei pensando não só sobre as bênçãos da maternidade, mas nos desafios enormes que temos que enfrentar se quisermos ser, como dizia Winnicott, “mães suficientemente boas”. Para ele esse tipo de mãe é aquela que permite ao seu bebê ir percebendo aos poucos, gradualmente mesmo, o quanto ela não pode estar disponível o tempo todo para ele. Nos momentos em que ele chora e ela ocupada com algo não pode vir em seu socorro imediato, estará mostrando desde cedo que a satisfação total de nossos desejos é algo absolutamente irreal. As ausências da mãe o preparam para lidar com as frustrações de um mundo desafiador e muito difícil por vezes. Mas de uma forma bastante questionadora quero ir mais além ao me permitir algumas “licenças poéticas psicológicas” estendendo o conceito winnicottiano da “mãe suficientemente boa” para aquela que em suas qualidades de alma e de ação no mundo, e no pleno exercício de amor por seus filhos, procura compreendê-los de uma forma muito profunda, permitindo a eles expressarem os dons de suas almas e a manifestação de escolhas intransferíveis, ao mesmo tempo em que consegue colocar os limites tão fundamentais e necessários a estruturação de um ego saudável. Algo que sem dúvida alguma não é nada fácil, pois o limiar entre a opressão e a liberdade excessiva por vezes se confunde.

E nesse sentido tenho visto na prática clínica algumas mães que podem ‘se agarrar demasiadamente’ aos filhos, como se eles fossem posse e propriedade delas, e outras que os deixam ‘soltos demais’ antes de estarem em condições de com sensatez cuidarem de si mesmos. O amor exercido em sua plenitude de uma forma luminosa demanda necessariamente que as ações maternas estejam impregnadas de bom senso entre o “soltar” e o “segurar”. Novamente algo não muito fácil, mas que com certeza pode ser feito sim, se formos levar em consideração o quanto a nossa responsabilidade enquanto mães tem que se fazer presente, e se quisermos ter a consciência tranquila e a sensação do ‘dever cumprido’ de uma forma adequada. Minha filha hoje já crescida, adulta, linda e independente, me faz lembrar novamente o quanto a maternidade (e a paternidade também, é claro) se expressa na tarefa mais desafiadora que podemos vivenciar na vida terrena, e que serão necessárias altas doses de equilíbrio e bom senso em sua prática.

Para finalizar meu texto gostaria de colocar um último pensamento, apenas a título de reflexão, e talvez para mim o mais importante sendo deixado para o final. Esses dois movimentos, o de ‘agarrar e não soltar’ e o ‘soltar demais, são na verdade cara e coroa da mesma moeda. Quando essa mãe não consegue por razões emocionais as mais diversas ter uma noção mais definida de quem ela realmente é enquanto pessoa, enquanto mulher, enquanto ser, ela não conseguirá, como consequência direta disso, perceber e reconhecer seu filho como um indivíduo que existe de forma individualizada. Ela o perceberá como um ‘apêndice’ dela. E essa percepção emocionalmente distorcida é que dará origem a esses tipos de comportamento. Seu filho ou filha na verdade nunca será um ‘elemento acessório’ a ser mantido, por mais que ela ilusoriamente o tente. ‘Agarrar demais’ e ‘soltar demais’ representam em termos comportamentais o não-reconhecimento de seu filho enquanto ser único e altamente independente, algo que precisa ser urgentemente observado se quisermos deixar nosso legado materno construído da forma mais iluminada possível. E por experiência própria, hoje mais do que nunca, sei do fundo de meu coração que isso é totalmente possível.

 

2 Responses so far.

  1. Fátima Aparecida Marin Stahl disse:

    Fantástico seu texto. Grande verdade, pais que ‘agarrar e não soltar’ e o ‘soltar demais,não são pessoas resolvidas e querem viver a vida dos filhos. Fantástico.

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