Mito de narciso: espelhos e imagens em uma cultura virtual (novembro de 2009)

Tecnologias absolutamente surpreendentes têm se desenvolvido no que diz respeito à saúde do corpo, mas principalmente com vistas à manutenção de uma beleza e juventude eternas. Nunca se consumiu tanto em termos de produtos estéticos, academias, cirurgias plásticas e procedimentos dos menos aos mais invasivos, sempre no sentido de se atingir o inatingível: a beleza perfeita e uma longevidade absoluta. Não existiria problema algum em tudo isso, não fosse pelo fato dos indivíduos procurarem desenvolver sua auto-estima não a partir de processos de autoconhecimento e reflexão profunda do ser, mas em função da construção de uma imagem física perfeita. Nesse sentido, o Mito de Narciso, e como todos os mitos, de caráter atemporal, surge mais uma vez como algo a ser contado, e que embora criado há séculos, ainda nos leva a pensar sobre a atualidade de seu significado.

Narciso nasceu possuidor de uma beleza de tal forma excepcional que o levou a um fim trágico, não por sua beleza em si, mas podemos dizer pela forma como ele lidou com ela. Sua mãe, a ninfa Liríope querendo saber se  seu filho viveria até velho, consultou o cego e adivinho Tirésias, que lhe respondeu com palavras um tanto ou quanto enigmáticas: ‘desde que ele não se veja…’ Narciso cresceu e sempre assediado por sua deslumbrante beleza, tornou-se orgulhoso e distante de qualquer possibilidade de envolvimento. Havia uma ninfa por nome Eco, que por ser muito tagarela, recebeu o castigo de pronunciar apenas as últimas palavras de tudo o que ouvisse, e que se apaixonou perdidamente por Narciso. Por ter sido por ele rejeitada, as ninfas revoltadas procuraram a Deusa Nêmesis, clamando por Justiça, pedindo que Narciso se apaixonasse por um amor impossível.

Um dia Narciso sedento aproximou-se de um lago de águas claras para beber, e vendo a si mesmo refletido, apaixonou-se perdidamente por sua própria imagem. Tão extasiado ele ficou, que permaneceu ali, imóvel, curvado (refletido) sobre si mesmo, mirando seu próprio reflexo indefinidamente, morrendo de inanição por não conseguir afastar os olhos de sua própria imagem. Em seu lugar, após sua morte, nasceu na beira do lago, a flor que recebeu o seu nome. O Mito de Narciso é um dos mais ricos em termos de interpretação e significados.

Assim como as imagens e reflexos de um espelho, seus significados não podem ser completamente esgotados. O sentido simbólico da vida e  morte de Narciso pode ser interpretado de diversas formas, mas sem dúvida alguma, podemos dizer que quando nos deixamos aprisionar por uma ‘imagem de nós mesmos’, nos vemos impedidos da capacidade de verdadeiramente ‘nos apaixonarmos pelo outro’.  Numa sociedade onde os encontros virtuais dão o tom dos relacionamentos, e onde o ‘culto ao corpo’ levado a extremos, beirando às raias de processos bulímicos desastrosos, nos sentimos muitas vezes dentro de  uma “sala de espelhos”, cujo perigo reside em ficarmos prisioneiros de reflexos que não necessariamente demonstram a nossa verdadeira essência.

Buscamos sempre referências nas pessoas à nossa volta, elas funcionam como espelhos que refletem nossos comportamentos e atitudes, todavia, mais do que nunca é fundamental que encontremos a orientação segura de nossa própria imagem em ‘espelhos’ que reflitam a nossa verdadeira identidade e essência. E eles somente se encontram, por mais contraditório que possa parecer, no mais profundo de nós mesmos.

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