Namorar ou “ficar”? Eis a questão. (Março de 2010)

Uma verdadeira revolução de costumes no que diz respeito a forma como os indivíduos vivenciam seus relacionamentos afetivos e amorosos, tem sido presenciada por especialistas que procuram explicar social e psicologicamente o que está acontecendo. Mudanças de comportamentos absolutamente rápidas e profundas vêm introduzindo novos padrões de “corte amorosa”, que vieram sem dúvida alguma, substituir a forma como nossas mães e avós vivenciaram o início de seus próprios namoros e casamentos. Ao que parece, quando falamos em namoro nos dias de hoje, ficamos com a impressão de algo saído das páginas de um ‘túnel do tempo’, na medida em que o “ficar”, envolvimento passageiro e sem maiores obrigações de comprometimento, parece ter se tornado a forma predominante pela qual não só adolescentes, mas também um crescente número de homens e mulheres adultos se relacionam. Esse comportamento natural e esperado para os primeiros, parece ter se tornado também um substituto freqüente para o namoro entre pessoas adultas, permitindo aos indivíduos não assumirem qualquer tipo de vínculo mais duradouro. As razões para isso são diversas.

A independência feminina cada vez maior não só sob um ponto de vista financeiro, mas também sexual, a utilização de métodos anticoncepcionais cada vez mais eficazes que possibilitam à mulher um maior poder de decisão sobre o que fazer com o próprio corpo, o crescente número de separações de casais, as mudanças do papel feminino e a percepção masculina de que as mulheres se tornam cada vez mais ‘poderosas’ e independentes, são variáveis bastante significativas que vêm alterando o equilíbrio que compõe essa equação amorosa. Da mesma forma, a expansão e incorporação de experiências que fazem parte de um universo virtual e globalizado ao dia-a-dia das pessoas, leva à construção de relacionamentos a ‘distância do clique de um mouse’, permitindo aos indivíduos não se sentirem mais tão responsáveis pelo que venham a despertar afetivamente em uma outra pessoa. O surgimento da Internet foi em grande parte o responsável por essa alteração de hábitos, na medida em que podemos conversar com pessoas geograficamente distantes, adicionar desconhecidos à nossa lista de contatos, bem como bloquear e deletar esses mesmos contatos quando se tornam indesejáveis ou desinteressantes, sendo esses comportamentos que se tornaram uma prática bastante comum nos dias de hoje.

No entanto apesar de todas as transformações sociais e de uma liberdade cada vez maior de escolhas no campo afetivo, uma das motivações mais básicas do ser humano do ponto de vista emocional continua sendo, a necessidade fundamental de amar e principalmente de ser amado. E ao contrário do que poderíamos pensar, apesar de toda essa liberdade de escolha, a carência emocional dos indivíduos nunca foi tão intensa e profunda. Nesse troca-troca incessante de parceiros, não será a quantidade que irá suprir e satisfazer esse desejo tão básico e tão inato a todos os seres humanos, mas sim a possibilidade de uma construção lenta, profunda, gradual e cuidadosa de vínculos que sejam mais satisfatórios e que possam nutrir e abastecer mais nossa própria alma. E nisso com toda a certeza, nossas avós tinham toda a razão…

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