NO LIMIAR ENTRE A LOUCURA E A SANIDADE

museu imagens do inconsciente 3Quando entrei para a faculdade de Psicologia nos idos dos anos 80, o trabalho da dra Nise da Silveira, psiquiatra renomada no Brasil, já era bastante conhecido. Neste feriado tive a oportunidade de assistir o filme sobre sua vida e sua obra terapêutica realizada com os pacientes internados no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, e que deram origem ao tão conhecido “Museu de Imagens do Inconsciente”. Uma referência nessa área e que se tornou um legado absolutamente precioso para a humanidade e para a posteridade.

Assistindo ao filme “Nise da Silveira, no Coração da Loucura”, senti uma emoção crescente bastante profunda em ver o quanto essa mulher, uma pioneira e guerreira no conceito mais pleno desses termos, desbravou mares nunca antes navegados, em águas onde podemos sentir o sal das lágrimas daqueles que vivenciam limites para nós inimagináveis de dor e sofrimento. O filme retrata sua chegada a essa instituição, depois de anos de exílio por sua condição de comunista na época. Estamos falando do ano de 1944 quando todo esse processo absolutamente inovador teve início. Vocês podem imaginar quanta resistência, quanta oposição, até mesmo sarcasmo, ironia e ataques ao seu trabalho foram corajosamente por ela enfrentados (como alguém, ainda mais uma mulher, ousa desconsiderar as tradições médicas vigentes??). Mas sua conduta humanamente impecável, de uma dignidade, decência e conduta ética impressionantes, mas principalmente fruto de um amor profundo pela condição de sofrimento e abandono humanos, sobrepujaram todos os obstáculos, transformando a nossa forma de compreender a loucura para todo o sempre.

Aos poucos através de sua incrível sensibilidade, Nise da Silveira foi percebendo com assombro o quanto a possibilidade de expressão de conteúdos inconscientes muito profundos poderiam vir à tona através da expressão artística de seres considerados e tratados como ‘farrapos humanos’. Pinturas e desenhos de incrível conteúdo simbólico foram surgindo inicialmente de forma muito fragmentada, diretamente proporcional ao grau de fragmentação de Ego dessas pessoas, para aos poucos do caos primordial de suas emoções irem nascendo verdadeiras obras de arte que apontavam para um caminho de reconexão com esse eu mais profundo e verdadeiro, imerso em um mundo caótico e de vazio absoluto.

E assistindo uma cena após a outra de dramaticidades absolutamente envolventes, fui sentindo, mais uma vez, através da interpretação magnífica de atores magistralmente bem dirigidos, a emoção da menina-moça de 16 anos que já fui, e que ainda habita dentro de mim, e que tão jovem escolheu a Psicologia enquanto caminho para ‘ajudar as pessoas’. A voz dessa jovem vibrou em meu coração e em minha alma mais uma vez, em alto e bom som, reverberando a emoção profunda que sinto por ter escolhido esse caminho que é não só profissional, mas de missão de vida.

Esse filme foi um presente para mim. Sou verdadeiramente apaixonada pelo que faço, sempre fui. Mas foi maravilhoso sentir novamente essa energia tão intensa de quando descobri minha predestinação na vida! Uma espécie de renovação de meus votos enquanto sacerdotisa do século XXI. Assistindo ao filme na tela, um outro filme foi se passando em minha mente: o de minha vida profissional, fruto de décadas de muita dedicação, estudos e aprofundamento, sempre acalentados e embalados por uma forte determinação em me tornar a cada dia o melhor de mim mesma. E cada vez mais sei e sempre continuarei afirmando o quanto conhecermos nossas emoções e nossa alma com profundidade é o caminho, é o melhor dos “remédios”, é o Portal que está sempre aberto, é a estrada pela qual ousadamente faço e refaço, crio e recrio, com toda a plenitude de minhas crenças no ser humano. E assim é, e assim sempre será!

 

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