O Casamento em Tempos Históricos e Atuais: Desafios e Contradições (Maio de 2010)

Temos visto ao longo de nossa história mudanças bastante significativas no que diz respeito aos padrões de comportamento social dos indivíduos, algo que com toda a certeza tem atingido também de forma significativa os relacionamentos no âmbito conjugal. O peso da balança em favor de uma tradição patriarcal existente há muitos séculos, foi o que possibilitou as bases de relações matrimoniais estruturadas enquanto um reflexo das relações de poder estabelecidas entre homens e mulheres, e que ‘deram o tom’ para uma música que muitas vezes se fez de forma bastante unilateral.

Numa seqüência histórica inicial, os contratos de casamento eram de caráter verbal, concretizados num âmbito estritamente familiar, onde tudo era resolvido sem a presença da mulher cabendo a ela aceitar o parceiro que lhe era imposto pelo pai, figura de autoridade inquestionável. Por muitos séculos o casamento foi, por assim dizer, algo ‘acertado entre as famílias’, freqüentemente passando ao largo do consentimento dos noivos e muito próximo de uma aceitação obrigatória de ambos que caso não ocorresse, colocaria em ação sanções familiares bastante sérias.

O caráter íntimo da realização das cerimônias de casamento dizendo respeito somente às famílias envolvidas, com o progresso das relações sociais, sai da esfera doméstica e passa para a esfera religiosa. A indissolubilidade do casamento respaldada por razões além de religiosas possuía também fortes razões econômicas, encontrando na Igreja um forte aliado para tal objetivo. Avançando na história dos relacionamentos familiares, a importância da união conjugal passa então a ser legislada pelo Estado, que toma para si a responsabilidade pela organização de tal prática. Temos então o surgimento do casamento civil responsável pela legalização da união entre duas pessoas, ato que não só concretiza o sentido social, mas também, e principalmente, o sentido de proteção aos direitos econômicos dos parceiros envolvidos.

No entanto se a forma como as uniões eram legitimadas foi se modificando ao longo do tempo, o sentido simbólico de “transmissão da tutela do pai para a tutela do marido” permaneceu inalterável. Tal fato pode ser observado na forma como a cerimônia de casamento religioso se faz ainda nos dias atuais. Embora o papel das mulheres na sociedade tenha evoluído muito em se comparando com as funções sociais e familiares de nossas antepassadas, muito do sentido simbólico das relações de poder entre homens e mulheres ainda hoje se mantém.

A tradição do cortejo nupcial de entrada da noiva na nave da igreja, trazida pelo braço de seu pai, sendo em seguida entregue a outro homem, seu futuro marido que a espera no altar, exemplifica muito dessa condição de transmissão da continuidade da submissão a um poder patriarcal que apenas troca suas figuras de autoridade. Vale notar que em tempos mais recentes, muito tem sido conquistado no que diz respeito a novos direitos dentro das relações de casamento, permitindo um respeito muito maior à forma como homem e mulher desejam se relacionar.

Direitos contratuais e conjugais repensados que abriram uma convivência mais equilibrada entre esposos e esposas. Os processos de mudança social são lentos e embora certas tradições ainda se mantenham, já conseguimos sentir e perceber  o quanto as relações de poder entre homens e mulheres vêm se alterando ao longo do tempo. O casamento enquanto a celebração de um rito de passagem para uma nova etapa de vida continuará felizmente a existir, na medida em que ritos de passagem são elementos estruturantes de transformações de caráter social e psicológico.

Ritos religiosos também evoluem com o tempo e com toda a certeza, surgirá algo novo em seu cerimonial que deixa de manifestar a ‘oficialização de um ato de tutela e submissão’, para expressar uma verdadeira e mais equilibrada parceria entre os cônjuges.

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