O “cura-te a ti mesmo” através dos cuidados com outros (julho de 2009)

Na certeza de que a vida é finita, embora procuremos não pensar muito sobre isso, dizem que o que realmente importa em nossa trajetória humana não é o fato de que ‘a morte é certa’, mas sim como vivemos e construímos nossas vidas. Como parte do processo natural do viver e da construção de uma realidade que se faz a cada instante, eu diria que é de fundamental importância a forma como lidamos com o nosso sofrimento e com nossas dores emocionais, sendo isso o que fará toda a diferença em relação a um crescimento enquanto seres em evolução. Por ser algo inerente a uma fragilidade tão certamente humana com toda a certeza passaremos ao longo de nossas vidas por momentos de intensa dor emocional, sempre associada, inevitavelmente, a experiências de caráter por vezes dramático.

Em um de seus inúmeros escritos, Freud afirmava que o ser humano se empenha e direciona seu comportamento na busca do prazer ao mesmo tempo em que busca evitar a dor. Mas temos muito claro em mente que evitar a dor nem sempre é possível. Então o que fazer? Como ir para além da dor emocional que muitas vezes insiste em ‘bater à nossa porta’, sem que percamos o rumo e a capacidade de escolhas adequadas? Na mitologia grega encontramos a figura do centauro Quíron, meio cavalo e meio humano, e que possui o atributo divino da imortalidade, e que por essa razão ele somente passa a compreender de forma mais profunda a dor humana, a partir do momento em que ele mesmo, inadvertidamente, é ferido por uma flecha envenenada.

O veneno mágico provocava uma ferida que, embora não matasse, não se curava nunca e que, quando tocada, doía muito. Quíron aprendeu que precisava cuidar desse lugar tão sensível, e foi através dessa experiência que ele pode ter uma maior percepção do que significa ‘a vivência de se tornar humano’, compreendendo que todos têm, por assim dizer, uma ferida que nunca fecha, que nunca cicatriza, não em um sentido físico, mas no sentido de alma. Essa intrigante figura mitológica simboliza a necessidade de aceitação e cuidados que precisamos ter para com nossa “ferida”, o nosso ponto frágil e mais sensível, sem o quê, nossa dor emocional, seja ela qual for, terá o poder de impedir um desenvolvimento existencial e espiritual mais pleno. Quíron possuía alguns dons entre eles o dom de curar, sendo ele próprio o “Médico Ferido” que exatamente por ter plena consciência de sua dor, era capaz de ‘curar a dor alheia’.

Por suas capacidades curativas e pela profunda compreensão da dor humana, ele se tornou mentor de diversos curadores, entre eles Asclépio, o ‘Pai Mítico da Medicina’, em cujos templos de cura na Antiguidade, o ser humano buscou alívio para seus sofrimentos. O mito de Quíron vem nos mostrar que através dos sentimentos de compaixão, entrega e propósito, entramos em contato com a dor e a fragilidade de outras pessoas, e através desse ‘encontro de almas’, temos a chance infinita de curarmos nossas próprias feridas.

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