O IMPOSSÍVEL ATO DE ‘MEDICALIZAR A ALMA’

chave no coraçãoNa minha sala de atendimentos tenho inúmeros objetos de decoração que exprimem muito de mim mesma e da forma como encaro e lido com muitas coisas. Mas existe uma parede que chamo carinhosamente da “parede do Ego”, onde estão expostos diplomas e certificados representativos de trinta anos de minha história profissional. É claro que o que define nossa competência não são os diplomas emoldurados tão somente, e dispostos com grande satisfação. Há que se mostrar ao público que chega até nós muito mais do que isso. Mas eles são importantes sim, pois representam a materialização de uma jornada da qual tenho imenso orgulho, e que embora tenha demandado muito de mim mesma em diversos aspectos, sempre trouxe uma alegria e um senso de realização que não tenho como expressar em palavras. Meu espírito se abastece e se torna cada vez mais pleno com o passar dos anos em que a cada dia renovo meus votos enquanto sacerdotisa do século XXI. Nada que se compare a esse sentimento materializado de uma forma tão pertinente a meu ver.

Não preciso nem dizer o quanto os meandros do psiquismo humano são fascinantes. E o quanto por mais que eu acredite que já vi de tudo, sempre muito mais está por ser descoberto. Mas tem um fato que está ocorrendo com uma frequência cada vez maior, e que muito tem me assustado: o número crescente de jovens e até mesmo adolescentes utilizando medicações psiquiátricas na linha dos antidepressivos e ansiolíticos. Quero aqui deixar bem claro que como psicóloga tenho a perfeita noção de que muitas vezes eles são bastante necessários em momentos em que os limites do suportável se tornaram bastante estreitos. Ou quando as fronteiras do Ego se rompem como nos casos de esquizofrenia. Ou em situações de crise bastante profundas pela vivência de situações de luto ou perdas. Mas aquilo que até ha poucas décadas atrás seria motivo de vergonha, (quem ia querer ser chamado de ‘maluco’ por estar indo ao psiquiatra?), hoje se tornou mais usual do que o desejado.

Mas comecei meu texto falando de meus diplomas e agora discurso sobre as abordagens médicas psicofarmacológicas. Qual a ligação entre essas duas coisas, vocês podem estar se perguntando. E vou lançar mão de uma frase que utilizo com bastante frequência em contextos diversos e que simboliza minha forma de encarar esse assunto: “no dia em que remédios controlados curarem as dores da alma eu rasgo meus diplomas”! E digo isso na certeza mais do que inequívoca e absoluta, que nem com todo o avanço que os próximos milênios possam trazer, isso será algum dia uma realidade possível. Portanto sei que a minha “parede do Ego” permanecerá intacta.

Não sou médica mas posso afirmar com a maior segurança e determinação que me é possível, que o funcionamento farmacológico em nossos centros cerebrais pode aplacar durante algum tempo nossa angústia e depressão, pode minorar os sintomas psiquiátricos mais graves e mantê-los sob certo controle (o que com certeza é um grande alívio, nunca diria o contrário!), mas jamais e digo jamais mesmo, poderá nos trazer um sentimento de paz, harmonia, compreensão, aceitação e entendimento de nossos processos internos. Os ‘mergulhos de alma’ que trazem à superfície as respostas que esperançosamente buscamos para nossa existência, nenhum remédio em prateleira alguma de nenhuma farmácia no mundo poderá nos prover. E sendo assim ‘medicalizar a alma’ se torna uma tentativa ilusória insistentemente preconizada e aceita por aqueles que através dessa atitude buscam uma espécie de escape e a evitação de um confronto verdadeiro consigo mesmos. As medicações ansiolíticas e antidepressivas precisam ser utilizadas e compreendidas enquanto ferramentas importantes, mas que na seara dos campos emocionais se tornam agentes complementares quando utilizadas em conjunto aos tratamentos psicoterápicos. Quando isso não acontece, o indivíduo vai se distanciando cada vez mais de si mesmo, anestesiando suas emoções sem ao menos compreender o que se passa dentro de si. É chegada a hora de se colocar em perspectiva tal temática para que possa haver o uso, mas não o abuso de tal recurso, que favoreça  o entorpecimento dos sentidos mais primordiais do Ser, aquilo que nos define enquanto seres humanos. Estarmos despertos em consciência, isso sim, o objetivo a ser alcançado.

 

 

 

4 Responses so far.

  1. Maravilha de texto. Realmente, nenhum medicamento produzidos em laboratórios chegarão na capacidade e resultados que alcançamos quando extraímos de nossa Alma o medicamento para oferecer aos nossos clientes, medicamento este tão simples, palavras compostas em sua composição de Amorosidade,respeito, conforto e sabedoria. Este sim, é o medicamento que esta juventude está precisando, talvés nem vindo de um atendimento terapêutico, mas da prórpia família. bj grande minha amiga.

    • Aluísio querido com certeza o grande medicamento que nossas almas precisam mais do que nunca é o amor, a confiança, o respeito, a dedicação e tudo o que de mais positivo tenhamos como terapeutas a oferecer ao mundo. E que como vc mesmo o disse tão bem, que as famílias possam conpreender cada vez mais a importância de seu papel.

      Um super beijo querido amigo!

  2. regina vilela disse:

    oi Monica, bom dia.
    Gosto muito dos seus textos. gostaria de saber se posso compartilhar no meu face. obrigada. bjs

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