O tempo realmente cura tudo? (Abril de 2010)

Dizem que o tempo cura tudo, mas até que ponto isso corresponde à realidade dos fatos? Será que o simples passar do tempo tem a capacidade de curar traumas? Podemos dizer que o trauma consiste em uma experiência que foi vivenciada de uma forma negativamente marcante, cujos danos emocionais continuam por muito tempo depois do fato ocorrido. Muitas vezes por uma vida inteira. Mas o que faz uma situação difícil ser traumática ou não? Certas situações são consideradas traumáticas quando num dado momento específico, existe uma impossibilidade de se encontrar uma ‘saída’ ou meios e formas saudáveis para se lidar com a situação vivenciada.

Isso pode ser explicado pelo fato de que nossa constituição bio-neurológica apresenta, de certa forma, uma “capacidade limitada” de dar conta de certas experiências. O trauma surge quando os limites possíveis para resolução de uma experiência de forte cunho emocional negativo são ultrapassados, sendo muito difícil para o indivíduo esquecer o que foi vivenciado. Surgem como conseqüência sentimentos de insegurança, medo e inadequação, que vão colorir outras áreas da vida emocional do indivíduo. Para que possamos dizer que “o tempo cura tudo”, seria necessário que ele fosse de alguma forma ‘aproveitado’ para a cura emocional do indivíduo.

No entanto é preciso levar em consideração  que muitas vezes por mais que se tente, a superação de um trauma não consegue ser de todo realizada sem uma ajuda profissional especializada. Interessantes estudos na área de mapeamento cerebral comprovaram de forma científica, os benefícios do atendimento psicoterápico para indivíduos traumatizados por acidentes, assaltos ou violência sexual. Essa comprovação foi obtida através de estudos comparativos de neuro-imagens obtidas por dois grupos distintos: o grupo experimental que se submeteu a sessões de atendimento psicoterápico, e o grupo de controle que não passou pela mesma experiência.

Nesse estudo comparativo foram encontradas modificações positivas significativas no grupo que se submeteu à terapia, em comparação com resultados obtidos pelo segundo grupo. Houve uma melhora no funcionamento de áreas cujas funções cerebrais são responsáveis pela orientação temporal e espacial e pela capacidade de síntese e interpretação da experiência traumática. Mas o que isso significaria exatamente?

Que os impactos de um atendimento psicoterápico se fazem sentir não somente no alívio experimentado, mas também  na percepção mesma da experiência traumática, que deixa de ser vivenciada como algo que fica ‘constantemente acontecendo no presente’, para se tornar algo que pertence única e exclusivamente ao passado. Isso nos leva a pensar que não podemos modificar os fatos ocorridos no passado, mas com toda a certeza podemos permitir que o fortalecimento do indivíduo frente a uma situação na qual ele se sentiu desamparado, modifique a percepção e interpretação mesma de sua realidade, despertando capacidades inimagináveis de lidar com a própria vida.

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