OS PAIS NÃO PODEM SER “AMIGUINHOS” DOS FILHOS

mãe e filha 4Há alguns anos atrás eu estava numa reunião de aniversário e fui apresentada a uma das convidadas, que como não podia deixar de ser, acabou por falar muito de si e de seus problemas pessoais. Isso em absoluto me surpreendeu porque desde muito jovem as pessoas sempre se sentiram naturalmente inclinadas a compartilharem seus problemas comigo de uma forma bastante íntima, sentindo-se confiantes em revelar seus pensamentos mais ocultos muito naturalmente. Essa minha característica aliada a tantos outros fatos é que me fez buscar ser uma “terapeuta de almas”, algo que com o passar do tempo se mostrou como definitivamente o meu caminho.

Mas estava falando do aniversário e de minha interlocutora. Ela assim que descobriu minha profissão, começou a me relatar algumas questões de sua vida (embora eu tentasse desviar o assunto para áreas mais amenas, mas sem muito efeito. Há muito tempo já entendi que de um jeito ou de outro, estou sempre de alguma forma, sendo canal para algo que se impõe ao meu destino). Ela comentou sobre sua separação, a criação dos filhos, suas dificuldades no dia-a-dia. A conversa embora com tons fortes fluiu de maneira prazerosa. Num dado momento ela começa a falar mais especificamente sobre a relação com sua filha adolescente. E de uma maneira bastante orgulhosa menciona que é muito amiga da filha, que não existem segredos entre elas e que ela acredita que essa é a forma mais adequada de ganhar sua confiança. Ela comenta que se sente muito bem em sua companhia nas saídas noturnas que ambas fazem em companhia mútua. Seu tom de voz se torna juvenil e pleno de entusiasmo, como se fossem companheiras inseparáveis da mesma turma no colégio. Quem me conhece bem teria percebido de imediato meu ‘ar de mudança’ que visivelmente com certeza se fez notar. Uma entre tantas histórias nesse sentido que tenho visto e observado muito de perto. E pergunto a ela de uma forma intensamente séria se posso dizer como percebo isso. Afinal de contas me sinto de certa forma autorizada para tal, já que ela mesma falou tão intimamente de sua vida, como quem busca algum tipo de referência. Mais que rapidamente ela diz claro que sim! Como quem espera a opinião abalizada de uma especialista na área do comportamento humano, que com certeza iria corroborar e fundamentar seus pensamentos.

E de uma forma muito direta digo: “os pais não são e não podem ser ‘amigos’ dos filhos (e expresso minha colocação fazendo o gestual com as mãos do ‘entre aspas’). Eles têm que se manter em seus papeis de pais!” Ela me olha muito surpresa e continuo. “Amigos e amigas eles terão às dezenas na rua, mas em casa eles têm somente uma mãe (e isso se aplica aos pais também). E você precisa se manter fiel ao seu papel para que sua filha possa se sentir segura”. “Sua filha precisa preservar sua imagem como tal, pois nos momentos em que ela com certeza irá precisar muito de sua ajuda, sua firmeza será muito importante. Ela terá somente a você para orientar quando os momentos de urgência e emergência surgirem”. E aqui pergunto aos meus leitores: como sair num dia a noite como ‘amiguinhas de balada’, e no dia seguinte colocar limites quando necessário? Impossível! Não preciso nem dizer que lentamente o assunto foi mudando e ela assim que pode se afastou.

Com a revolução de comportamentos ao longo das últimas décadas e o crescente número de separações de mulheres ainda jovens e desejosas de refazerem suas vidas, tenho testemunhado algo que seria inimaginável até muito pouco tempo atrás: mães que se comportam como verdadeiras adolescentes acompanhando as filhas nas baladas e barzinhos, e que numa busca e tentativa de encontrarem um novo parceiro, muitas vezes procuram agir e se manter tão jovens quanto elas. Não quero dizer em absoluto, e afirmo aqui com todas as letras clara e inequivocamente, que elas não possam ou não devem fazer isso. Muito pelo contrário! Toda mulher tem o direito a refazer sua vida amorosa e até mesmo conjugal, se assim for sua escolha. Mas ela deve fazer isso acompanhada de seu círculo de amigas, ou na melhor das hipóteses, na companhia da melhor amiga confidente, que com certeza passa por situação semelhante. Mas nunca, e nunca mesmo na companhia dos filhos adolescentes ou adultos jovens. Esses com certeza terão sua participação na vida de suas mães muito bem-vinda, mas enquanto aqueles que torcem por vê-las felizes e novamente realizadas. Mas jamais enquanto “amiguinhos” de suas mães. A que se entender que a hierarquia familiar deve ser preservada a todo custo, garantindo que os filhos se sintam seguros com a presença das figuras de pai e mãe não só enquanto autoridades protetoras, mas como aqueles com quem se possa “brigar para crescer”. E faço essas colocações não só enquanto profissional da área, mas enquanto mulher, na minha crescente preocupação com os rumos que as mudanças sociais vêm tomando. Sei que meus últimos textos escritos tem tido um tom bastante polêmico e até mesmo controverso. Mas o meu objetivo é esse mesmo. Quanto mais nesse sentido melhor! E outros assuntos nessa linha aguardam nas prateleiras de minha mente e coração e serão no momento oportuno aqui expressos e transmitidos.

O meu mais sincero desejo é que todos nós tenhamos sempre a capacidade de mudar, avançar e transformar, mas preservando as possibilidades fundamentais de se manter limites saudáveis para nossa evolução.

4 Responses so far.

  1. Monica Cristina Guberman disse:

    Bem interessante seu texto Monica! Vejo isso acontecer de vez enquanto e admito achar bem estranho… Mas isso não significa que os pais não possam ser aquele amigo “porto-seguro” dentro de casa para o filho poder contar quando quiser, certo?
    Um beijo e parabéns pelo texto!

    • Philipe é claro que os pais devem ser sempre o ‘porto seguro’ de seus filhos e até menciono isso no texto, como sendo as figuras protetoras e para quem eles podem e devem se voltar buscando apoio e orientação. Expresso isso bem claramente no texto de diversas formas. E é exatamente para que essa autoridade protetora possa ser mantida que eu falo que os pais devem ser Amigos (com A maiúsculo) de seus filho e não “amiguinhos”, entende? Caso contrário eles perdem sua autoridade no bom sentido e vira o caos familiar. Bjs querido! Espero ter conseguido me fazer compreender.

  2. Germana disse:

    Mônica, simplesmente adorei a verdade revelada em seu texto. Posso compartilhar com alguns amigos que vivem nessa situação?

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