Quando Cinderela Abraça Tudo a Que Tem Direito

cinderelaSempre amei os Contos de Fada desde muito pequena, mas somente já adulta e formada, é que fui entender o porquê de tamanho fascínio exercido sobre minha mente infantil. É claro que além de serem magistralmente bem escritos, eles têm despertado o interesse e a curiosidade de sucessivas gerações que tiveram a oportunidade de ‘voarem’ através de suas páginas encantadas. No entanto enquanto terapeuta, hoje sei que não é apenas um senso de encantamento e magia que tornam esses contos tão atraentes, mas suas mensagem simbólicas de caráter coletivo e individual que são transmitidas ao nosso inconsciente, auxiliando enormemente a estruturação da personalidade infantil em formação.

Hoje pela manhã estava em sessão com uma cliente de terapia, e conversávamos sobre questões ligadas a sua extrema necessidade ainda muito presente, de se sentir aceita em seu jeito de ser por seus pais, e do quanto como parte desse contexto sempre se sentiu desvalorizada e preterida em relação à irmã mais velha, considerada por ela o ‘centro das atenções’. Durante nossa conversa a história da “Gata Borralheira” enquanto filha e irmã humilhada me veio à mente. Sem poder deixar de traçar um paralelo entre a história de vida de minha cliente e esse tão conhecido conto infantil, mencionei o quanto esse personagem fazia tudo e absolutamente tudo o que estivesse ao seu alcance para agradar às irmãs e à madrasta, sem nunca conseguir tal intento, muito pelo contrário, tornando-se o alvo constante de maus tratos. Convidada para o baile no palácio real juntamente com suas irmãs, que tudo fazem para frustrar sua participação em tal evento, o surgimento da fada madrinha lhe dá a oportunidade de mudar radicalmente sua história, assumindo o lugar que é seu por direito. Na minha visão esse momento pode ser interpretado como aquele em que simbolicamente a “Gata Borralheira” vira “Cinderela”, ao perceber seu valor e se permitir buscar a realização plena enquanto protagonista de sua própria vida. O encontro e união com o Príncipe acontece na ordem natural dos fatos, representando o ‘Casamento Alquímico’ para o qual sua alma já estava pronta, algo que somente poderia ocorrer quando ela pudesse perceber que sua ‘invisibilidade’ perante os olhos do mundo, era causada e até mesmo construída por ela mesma.

Mas voltando a falar de minha cliente, é lógico que acolho com muito carinho a percepção que ela está tendo de si mesma e dos outros, mas buscando ao mesmo tempo mostrar o quanto esse movimento de “sair do borralho para o palácio” somente pode acontecer quando ela perceber de uma forma muito definitiva o quanto é sua prerrogativa intransferível a possibilidade de uma evolução ‘para além do que é esperado dela’. E isso demanda não só tempo, mas extrema coragem de enfrentamento do desconhecido. Ela tem feito isso com muita coragem e confiança em si mesma, e seu processo associado a inúmeros fatores tem se desenvolvido de uma forma muito bonita. Com certeza em um dado momento ela irá perceber que podemos nos sentir “borralheiras”, mas que nascemos e estamos predestinadas a sermos rainhas, cabendo a nós mesmas relembrar tal fato tantas vezes esquecido. E de vez em quando me permito sentir tal qual ‘fada madrinha’, empunhando a varinha de condão que espero esteja sendo bem conduzida no meu papel de terapeuta, que ousa desde menina, se permitir sentir capaz de auxiliar os seres a se transformarem no melhor de si mesmos. E sendo assim os Contos de Fada podem ser percebidos enquanto alegorias brilhantes de nossa própria realidade material, sendo nossa responsabilidade e direito escrevermos o final feliz de nossa própria história. Afinal de contas, e não tenho a menor dúvida quanto a isso, essa a finalidade com toda a certeza, de estarmos aqui nessa terra!

 

 

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