Transtornos alimentares: tenho um corpo logo existo? (Agosto de 2008)

Estamos testemunhando nos dias de hoje um acontecimento que vem “na contramão da História”. O ato perfeitamente natural de se alimentar o corpo físico, e a relação com o alimento, passaram, em alguns casos, a sofrer distorções e a ser o palco para distúrbios emocionais, os chamados transtornos alimentares, que vem se apresentando como uma verdadeira “epidemia” que assola as sociedades industrializadas e desenvolvidas, acometendo, sobretudo, adolescentes e adultos jovens, havendo uma maior incidência de casos num público feminino. Mas de que forma algo que é tão natural se transforma em algo tão estranho à nossa experiência?

Regimes ‘draconianos’, a obsessão por magreza e o ‘culto ao corpo perfeito’, contrariamente do que seria o desejável, não mais causam espanto ou preocupação, sendo encarados como algo perfeitamente natural pela nossa sociedade. A obsessão pela beleza estética e a magreza do corpo físico, vem servindo de base e condição para o aumento significativamente alarmante de casos de transtornos alimentares como a bulimia e a anorexia. Essas duas patologias estão intimamente relacionadas por apresentarem alguns sintomas em comum, tais como a preocupação excessiva quanto ao peso, o medo patológico de engordar e uma percepção distorcida da imagem corporal que o indivíduo tem de si mesmo. O indivíduo pode estar perigosamente magro e ainda assim acreditar que precisa continuar a emagrecer. O resultado é a paulatina deterioração física e mental, que começa com sintomas leves como queda dos cabelos, podendo chegar a complicações cardiovasculares, renais e endócrinas graves que podem levar à morte.

Não só aspectos neurológicos e orgânicos parecem estar envolvidos no processo, mas também aspectos culturais e principalmente psicológicos. O ato de comer sempre foi e continua sendo um fenômeno de comunicação social, de identificação cultural, de relacionamentos de grupo, de tal forma que na maioria dos atos sociais a comida ocupa um lugar de destaque. Em um sentido mais psicológico a ingestão de alimento através do contato com o peito materno na lactação, está associada desde o princípio da existência humana à uma sobrevivência que é não só física mas também emocional e afetiva. O corpo físico se torna desde sempre o palco para a representação e significação de algo que transcende o meramente físico. Sob certo sentido, embora haja algumas explicações diversas para a origem dos transtornos alimentares, por mais paradoxal que possa parecer, estamos falando aqui de um indivíduo que busca vorazmente saciar sua alma. Parar de comer ou comer em excesso, cara e coroa da mesma moeda, nada mais é do que a existência de uma dificuldade em se descobrir verdadeiramente qual o “alimento” que possa preencher o ser emocional e espiritual.

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